Livros discutem os 60 anos do golpe militar de 1964

PublishNews reuniu novos lançamentos e reedições importantes que estão sendo lançados para discutir a efeméride; são livros de não ficção, graphic novels, ficção e infantojuvenil

A marca de 60 anos do golpe militar de 1964 – que será cumprida entre os dias 31 de março e 1º de abril – tem ocupado o noticiário recente: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva barrou eventos e até uma campanha do Ministério dos Direitos Humanos, recebendo críticas de movimentos sociais e grupos aliados. Por outro lado, o governo espera silêncio nos quartéis, em contraposição à atitude mais desabrida dos militares durante a gestão anterior do governo federal, quando havia celebrações e até atos públicos.

Fato é que o golpe deixou marcas profundas na história do Brasil dos últimos 60 anos, e desde o primeiro momento o mercado editorial brasileiro discutiu suas consequências, arbítrios e efeitos na vida das pessoas. O PublishNews reuniu livros – novos lançamentos e reedições importantes – que estão sendo lançados para discutir a efeméride. São livros de não ficção, graphic novels, ficção e infantojuvenil. Veja abaixo com as sinopses fornecidas pelas editoras.

Não Ficção

  • 1964: Como foi desmontada a democracia no Brasil (Companhia das Letras), de Heloisa Starling

Recuperando com riqueza de detalhes o estopim da deflagração do golpe de 1964, Heloisa Murgel Starling esmiuça os antecedentes que pavimentaram a derrubada da presidência de João Goulart e deram início a uma ditadura militar de vinte e um anos. Nesse percurso, a historiadora evidencia a articulação entre miliares e governadores na empreitada contra o presidente, e a disputa entre eles pela primazia do movimento golpista, descrevendo a concepção e execução da quartelada do general Olympio Mourão Filho, a movimentação política do governador mineiro José de Magalhães Pinto, a atuação do general Carlos Luís Guedes, e a reação do general Castello Branco. A essa intricada rede de conspiradores soma-se a indispensável participação política dos Estados Unidos, personificada no embaixador Lincoln Gordon, cujos esforços para neutralizar e derrubar Jango se fizeram por programas de financiamento a governadores anticomunistas, patrocínio eleitoral nas eleições parlamentares, além de treinamentos para capacitação policial e acordos militares. O livro será lançado em ‘episódios’ de dois capítulos por vez, em formato de e-book. O primeiro foi lançado no dia 08/03.

1964: Como foi desmontada a democracia no Brasil, de Heloisa Starling

Companhia das Letras
E-books por R$9,90

  • A transição inacabada (Companhia das Letras), de Lucas Pedretti

A transição política no Brasil após a ditadura, culminando na Constituição de 1988, visava romper com o passado autoritário do país. Contudo, o que observamos foi um aumento aterrador dos números de violência policial e encarceramento ao longo dos anos. Essa passagem, orquestrada pelos militares e pelas elites civis, marcada pela retórica da “conciliação” e do “esquecimento”, resultou na instauração de um sistema no qual o Estado continua a gerar vítimas diariamente. Entender este período de redemocratização é fundamental para pensarmos sobre os desdobramentos na política atual, que continuamente se insere em um ciclo de violência e autoritarismo. E-book disponível desde 12/03; Livro impresso chega às livrarias em 23/04.

A transição inacabada, de Lucas Pedretti
Companhia das Letras
320 p. | R$ 99,90

  • Rebeldes e marginais: cultura nos anos de chumbo (1960-1970) (Bazar do Tempo), de Heloisa Teixeira

“Ao compartilhar esses textos, materiais e perspectivas, sinto como se estivesse dividindo também uma grande parte da minha vida, que se mistura às experiências e pesquisas em torno desse tempo de medos e sonhos”. (Heloisa Teixeira)

Um mix de ensaios de Heloisa Teixeira com 28 fotografias e 48 QR codes que levam a vídeos, entrevistas e imagens do acervo histórico da autora sobre os anos de 1960 e 1970. A ditadura militar instaurada no Brasil em 1964 teve dois marcos referenciais: o golpe militar na noite de 31 de março daquele mesmo ano e a publicação do AI-5, em dezembro de 1968, chamado de “o golpe dentro do golpe”. A turma que resistiu à ditadura também ficou marcada por essa fissura: num primeiro momento, foi às ruas, protestou, fez da cultura uma ferramenta política importante para lutar; a partir de 1969, surgiu a geração do desbunde e também da luta armada. Eram os Rebeldes e marginais do livro de Heloisa Teixeira (então Buarque de Hollanda).

Durante um longo período de sua vida, Heloisa estudou obstinadamente a produção cultural brasileira sob a mão pesada da ditadura militar e da censura. Sobre esse tema, ela escreveu uma tese de doutorado, quatro livros e inúmeros artigos examinando a cultura como resistência e afirmação da juventude rebelde da época. Agora, aos 84 anos, ela decide compartilhar essas fontes, reunir e reorganizar o material que produziu sobre esta época mágica, quando a cultura enfrentou estruturas, ditaduras e soube sonhar novos futuros. Este livro é, portanto, um precioso apanhado de décadas de pesquisa apresentado a partir de um olhar atual sobre o que aconteceu naqueles anos 1960/1970.

Rebeldes e marginais: cultura nos anos de chumbo, de Heloisa Teixeira
Bazar do Tempo
288 p. | R$ 78

  • Apenas uma mulher latino-americana: em busca da voz revolucionária (Rocco), Bruna Ramos da Fonte

Em Apenas uma latino-americana: em busca da voz revolucionária, a autora convida o leitor para uma viagem através da música de protesto produzida no Brasil e nos países da América Espanhola durante o período da Guerra Fria, quando diversos países da região viveram sob o domínio de ditaduras militares. O livro, que será lançado no âmbito dos 60 anos do golpe militar de 1964, tem prefácio assinado pela cantora e compositora chilena Tita Parra, neta de Violeta Parra.

Ao expandir a sua pesquisa para todo o território latino-americano e Caribe, a autora explorou a música de intervenção produzida no Brasil durante o governo militar, não se limitando a falar exclusivamente sobre as obras autorais produzidas no país, mas também sobre a colaboração entre brasileiros e artistas de outras partes do território, que resultou em parcerias e gravações históricas. Afinal, foi uma época de grande intercâmbio cultural entre os países, onde Chico Buarque gravou canções de Pablo Milanés, Milton Nascimento gravou Silvio Rodriguez e Violeta Parra – esta última também gravada por Elis Regina. Além disso, a constante presença da cantora argentina Mercedes Sosa no Brasil rendeu uma série de gravações históricas com grandes artistas da nossa MPB.

Bruna Ramos da Fonte é biógrafa, escritora, historiadora e jornalista, especialista em Direito Internacional e Direitos Humanos (PUC-Minas) e Relações Internacionais (UAM).

Apenas uma mulher latino-americana: em busca da voz revolucionária, Bruna Ramos da Fonte
Rocco
280 p. | R$ 69,90

  • Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil (Editora FGV), de Carlos Fico

Rememorando o golpe civil-militar ocorrido no Brasil, que completa neste 2024 seus 60 anos, a FGV Editora lança a segunda edição do livro Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil, de Carlos Fico. Publicada originalmente em 1997, a obra analisa a propaganda política que o regime militar brasileiro produziu no período 1969-77, focalizando a velha temática do “otimismo” (e seu reverso, a do “pessimismo”), e mostrando a dimensão política dessas ideologias durante o período.

Nesta análise, é possível entender por que “os tópicos do otimismo — a exuberância natural, a democracia racial, o congraçamento social, a harmônica integração nacional, a cordialidade e a festividade do povo brasileiro, entre outros — foram ressignificados pela propaganda militar tendo em vista a nova configuração socioeconômica que se pretendia inaugurar”. Uma propaganda baseada em um discurso ético-moral com estrutura, na qual teóricos e militantes se apropriaram, via golpe, do poder de conceituar o que era “nacionalidade”, “democracia”, “sociedade brasileira”, “cultura brasileira”, “economia brasileira” e assim por diante.

Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil, de Carlos Fico
FGV Editora
240 p. | R$ 54

  • SUS: Uma biografia (Record), de Luiz Antonio Santini e Clóvis Bulcão

Até a criação do SUS, mais da metade da população era totalmente excluída do atendimento básico de saúde. Inconformados com a situação, alguns profissionais idealizaram o conceito e se articularam para incluir a universalização da saúde na Constituição de 1988. Um destes médicos, Luiz Antonio Santini é autor, ao lado do historiador Clovis Bulcão, de SUS: Uma biografia (Ed. Record), que traça um rico panorama da sociedade brasileira na segunda metade do século XX

O livro relembra a participação decisiva do Centrão e de figuras públicas que se engajaram diretamente na campanha por um serviço de saúde público e universal. O SUS é considerado o maior programa de inclusão social do Brasil, pois abarcou como beneficiários uma parcela da população que, por não ter carteira assinada ou condições de pagar pelo serviço privado, era considerada indigenteLivro também traça um panorama da história da saúde pública no Brasil desde os tempos coloniais, recorrendo não apenas a relatos de religiosos e exploradores, como também a escritores que exerceram a medicina, como João Guimarães Rosa e Pedro Nava, e cita experiências exitosas em cidades como Natal (RN), Sobradinho (DF), Londrina (PR), Niterói (RJ e Montes Claros (MG), que tinham em comum a participação das universidades públicas

SUS: Uma biografia, de Luiz Antonio Santini e Clóvis Bulcão
Ed. Record | Grupo Editorial Record
350 págs. | R$ 89,90

  • A esquerda e o golpe de 1964 (Civilização Brasileira), de Dênis de Moraes

Nos 60 anos do golpe civil-militar, o jornalista e escritor Dênis de Moraes revisita seu clássico e apresenta depoimentos e conteúdos inéditos sobre a experiência e as reflexões da esquerda brasileira frente ao processo político que levou à deposição do presidente João Goulart em 1964. Dênis de Moraes apresenta importantes reflexões e revelações sobre os bastidores da política, da luta operária e das mídias, além de depoimentos esclarecedores daqueles que viveram e resistiram aos anos de chumbo. Nomes como Darcy Ribeiro, Francisco Julião, Luiz Carlos Prestes e Leonel Brizola são apenas alguns dos que ilustram estas páginas. Com linguagem jornalística e dados obtidos em fontes primárias, como jornais de ampla circulação e testemunhos, os leitores e as leitoras encontram uma narrativa histórica dinâmica e cinematográfica. Para complementar as análises, José Paulo Netto participa com um prefácio inédito e René Armand Dreifuss assina o posfácio da primeira edição de 1989.

A esquerda e o golpe de 1964, de Dênis de Moraes
Civilização Brasileira
532 p. | R$ 99

  • Geisel em Londres: A visita de Estado em 1976 e a questão dos direitos humanos (Mauad X), de Geraldo Cantarino

Em seu quinto livro, Geisel em Londres (Mauad X), o jornalista Geraldo Cantarino traz os bastidores da histórica visita de Estado do presidente Ernesto Geisel à Inglaterra em 1976, considerada controversa, polêmica e um erro moral, em plena ditadura.

“O livro de Geraldo Cantarino é uma análise meticulosa e devastadora dos bastidores diplomáticos, políticos e econômicos da visita do presidente de uma ditadura militar a uma das democracias mais antigas do mundo”, escreveu a jornalista inglesa Jan Rocha, ex-correspondente da BBC no Brasil, no prefácio do livro. “Ele revela todos os detalhes do minueto que foi cuidadosamente dançado pelos diplomatas e membros de vários governos britânicos para contornar as crescentes denúncias de violações de direitos humanos no Brasil e não atrapalhar os potenciais contratos milionários, trazendo encomendas e empregos para a indústria britânica, que uma bem-sucedida visita poderia produzir”, afirmou Jan Rocha.

Geisel em Londres: A visita de Estado em 1976 e a questão dos direitos humanos, de Geraldo Cantarino
Editora Mauad X
336 p. | R$ 89

  • Diários: 1973-1974 escritos por Mércia Albuquerque Ferreira (Editora Potiguariana)

Em 1993, quando fazia as pesquisas sobre o assassinato do militante mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, assassinado no DOI-CODI do Recife em outubro de 1973, recebi uma informação importante da família Mata Machado: “Procure a advogada Mércia Albuquerque. Ela conseguiu localizar o local onde o corpo foi enterrado, conseguiu fazer a exumação e mandou para Belo Horizonte”. Parecia um delírio, uma advogada conseguir uma façanha como aquela, no auge da ditadura. Entrei em contato, agendei uma entrevista e fui recebido em um apartamento simples, no centro do Recife, onde tivemos três longas conversas. Chamava a atenção o pouco espaço para móveis e coisas de sua vida pessoal, e a grande quantidade de pastas, repletas de documentos, cartas, relatos, que ela foi guardando, do período em que se especializou em defender presos políticos durante o regime militar. Além de material da advogada, havia seus escritos, diários que certamente tinham muito do que ela viveu e sentiu na pele, porque se tornou amiga de muitos de seus “clientes”, que muitas vezes não tinham como pagar por seu trabalho. Muitas vezes, ela era que dava alguma ajuda. Muitas vezes, sequer a família sabia onde eles estavam presos. Foi ameaçada de morte muitas vezes.

Diários: 1973-1974 escritos por Mércia Albuquerque Ferreira (Editora Potiguariana). Apresentações de Teresa Villaça, Roberto Monte, Perly Cipriano, Nilmário Miranda e Gilney Vianna
Editora Potiguariana
182 p. | R$ 50

  • A morte de Vladimir Herzog, de Alberto Kleinas

Vladimir Herzog (1937-1975) foi um dos resistentes mortos pela violência política da ditadura militar. Junto com sua vida, o regime procurou retirar-lhe a dignidade, com a versão falsa do suicídio do então diretor de jornalismo da TV Cultura, emissora pública do Estado de São Paulo. Uma movimentação de jornalistas e ativistas resistiu a essa versão, questionando não apenas o Estado, mas também parte da comunidade judaica que não se atreveu a enfrentar a aparelho repressivo – dava-lhe, antes, suporte, deixando à mercê dos militares os ativistas judeus de esquerda e ligados ao Partido Comunista Brasileiro, como era o caso de Herzog. É este movimento que Kleinas resgata, mostrando as dificuldades enfrentadas pela corajosa aliança de judeus progressistas, lideranças religiosas como D. Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo Jaime Wright, e os movimentos políticos sob pressão constante. Foi deste embate, revelador de quem apoiava a barbárie e de quem a combatia, que se alimentou o movimento pela democracia no Brasil.

Alberto Kleinas (1965-2023), nasceu em São Paulo, capital. De origem judaica e por influência política de seu pai, atou desde os anos 1980 em movimentos sociais de esquerda através do teatro popular, além de assumir participação no Movimento Estudantil e na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). É mestre em Ciência Politica.

A morte de Vladimir Herzog, de Alberto Kleinas
Alameda Editorial
R$ 68

GRAPHIC NOVEL

  • Chumbo (Nemo), de Matthias Lehmann, com tradução de Bruno Ferreira Castro e Fernando Scheibe

Centrada na saga de uma família mineira, Chumbo, do autor franco-brasileiro Matthias Lehmann, constitui um afresco deslumbrante do autoritarismo brasileiro no século XX. Publicada originalmente em agosto de 2023, pela editora francesa Casterman, a obra fez parte da Seleção Oficial do Festival de Angoulême em 2024.

No interior de Minas Gerais, o opulento patriarca Oswaldo Wallace dirige suas empresas de mineração com mãos de ferro. Seus dois filhos homens, Severino e Ramires, têm apenas um ano de diferença, mas não possuem nada em comum: Severino, militante de esquerda, tornou-se jornalista e depois escritor, enquanto Ramires apoiou os militares durante a ditadura, no período conhecido como os “anos de chumbo”.

Inspirada na história da sua família, em especial de seu tio, o escritor mineiro Roberto Drummond, a graphic novel de Matthias Lehmann é uma saga retumbante, na qual personagens e destinos se cruzam e entrecruzam. Em páginas ricamente compostas, recorrendo à caricatura, à publicidade e ao design gráfico brasileiros, o autor mistura fatos íntimos com a história brasileira.

Chumbo, de de Matthias Lehmann, com tradução de Bruno Ferreira Castro e Fernando Scheibe
Nemo
368 p. | R$ 119,80

FICÇÃO

  • Na corda bamba: memórias ficcionais (Ed. Record), de Daniel Aarão Reis

Célebre historiador e pesquisador, Daniel Aarão Reis estreia na ficção com Na corda bamba: memórias ficcionais (Ed. Record). O livro tem contos com inspirações autobiográficas, como o episódio do sequestro do embaixador americano e a ação que libertou 40 presos políticos em troca pelo embaixador alemão. Às vésperas do marco de 60 anos do golpe militar de 1964, o autor nos apresenta um retrato ficcionalizado da experiência de uma geração de jovens e da sociedade brasileira nas sombrias décadas de 1960 e 1970. Com uma carreira consolidada como historiador e autor de não-ficção, Daniel Aarão Reis faz sua estreia na literatura com este livro sui generis, em que transforma sua vivência em literatura e dá humanidade para o que foi vivido – dimensão que os livros de História dificilmente alcançam.

Estruturada em três partes – “Ditadura”, “Exílio” e “Retorno” –, a narrativa se desenrola por meio de contos que, em ordem cronológica, acompanham os traumáticos acontecimentos do período e tecem o curso de uma história única, mas sob diversas perspectivas diferentes. Com narradores e personagens plurais, tanto progressistas de esquerda quanto apoiadores do golpe, ambienta-se no Rio de Janeiro, em Argel, Paris, Santiago, Havana e de volta ao Rio de Janeiro, retratando com sensibilidade e não raras vezes humor, o cotidiano, as vivências, dores, ambições, medos e contradições daqueles jovens cheios de ideologia e sonhos.

Na corda bamba: Memórias ficcionais, de Daniel Aarão Reis
Record
476 págs. | R$ 49,90

  • Tia Beth (Insígnia Editorial), de Leonardo de Moraes

Professor de Direitos Humanos, mestre em Direito do Estado e tabelião, Leonardo de Moraes apresenta à literatura nacional a obra Tia Beth. O drama familiar com ares de romance de formação aborda as violências institucionais cometidas pelo Estado brasileiro ao longo do século XX e como os conflitos enfrentados pelas juventudes, em quaisquer gerações, permanecem os mesmos. Para tanto, ganha voz a excêntrica idosa Beth, que, no intuito de superar os traumas do passado, contrata o sobrinho-neto, Leonardo, para escrever suas memórias. Em uma sucessão de diálogos regados a café, cigarro e bourbon – combustíveis para o humor ácido da personagem principal -, o leitor mergulha em importantes questões históricas e sociais do Brasil. Entre os momentos narrados, estão as perseguições contra estrangeiros durante a Segunda Guerra Mundial; a existência dos campos de concentração em solo nacional; o policiamento ideológico nas décadas de 1940 e 1970; a hipocrisia de uma sociedade elitista; e a típica busca espiritual das famílias brasileiras que vivenciaram o luto.

Tia Beth, de Leonardo de Moraes
Editora: Insígnia Editorial
360 p. | R$ 64,90

  • Carnaval Amarelo (7Letras), de Jairo Carmo

Carnaval amarelo é um romance de formação que conta a história de José Afonso, advogado nascido na Amazônia e criado na cidade fictícia de Miradouro (Pará), que ainda jovem vai para o Rio de Janeiro estudar e investir na carreira profissional. No Carnaval de 1985, ele aguarda a namorada Alice, em seu apartamento em Copacabana, enquanto mergulha no passado e tece um vívido retrato de uma época que reúne alguns dos problemas mais desafiadores da sociedade brasileira, e que permanecem até hoje: a injustiça, o racismo, o legado da ditadura, a violência contra a mulher, a desigualdade social. Com sensibilidade narrativa, o autor criou um romance tocante, por vezes divertido, que acima de tudo faz refletir sobre a passagem do tempo e os revezes e aprendizados da vida

Jairo Carmo nasceu em Monte Alegre, Pará, é casado e tem cinco filhos. É professor de Direito Civil e membro da Academia Brasileira de Letras da Magistratura (ABLM). Carnaval amarelo é seu primeiro romance.

Carnaval amarelo, de Jairo Carmo
Editora 7Letras
192 páginas | R$ 74,00

  • Abaixo a vida dura, de Cadão Volpato

Os estudantes tinham desaparecido das ruas em 1968, mas voltaram com tudo em 1977, gritando outra vez a palavra de ordem que era considerada uma provocação: Abaixo a ditadura. Esta é uma história baseada na mitologia da tendência Liberdade e Luta, que trouxe de volta o “Abaixo a ditadura” ao movimento estudantil, e de alguns de seus militantes, conhecidos como libelus. Também é a história de uma república em um lugar distante, e de seus moradores, todos afetados pelo acontecimento mais dramático daquele ano: a invasão da PUC, a Pontifícia Universidade Católica, na noite de 22 de setembro, quando cerca de 1.500 pessoas foram espancadas e presas e a universidade foi depredada pela polícia da ditadura.

Aos 20 anos, achamos que somos imortais. Isso dura até o primeiro grande tombo. É quando despertamos para a dureza da vida. O primeiro grande tombo daquela geração foi a invasão da PUC pela polícia. Esta é a história de um grupo que tentou mudar o mundo e mudar a vida, na base da amizade e da luta. No tempo das cartas, dos telegramas e dos telefones com fio. Um tempo que passava rápido, debaixo de uma ditadura que teimava em não passar e que, ainda hoje, mesmo morta, parece viva. Por isso, os gritos audaciosos daqueles garotos de 20 anos continuam a ecoar por aí: Abaixo a ditadura. Abaixo a vida dura.

Abaixo a vida dura, de Cadão Volpato
Faria e Silva
224 p. | R$ 67,90

INFANTOJUVENIL

  • Era uma vez no quintal (Pallas), de Andreia Prestes

Como o sobrenome deixa antever, Andreia é neta de Luís Carlos Prestes (1898-1990) por parte de mãe e de João Massena Melo (1919-), avô paterno, sobre quem a trama se desenvolve. Um dos líderes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), João Massena foi perseguido na Era Vargas e na ditadura militar. De origem pernambucana, era operário tecelão e metalúrgico, presidente do Sindicato da categoria. Foi preso duas vezes por razões políticas. Em 1962, foi eleito deputado pelo Estado da Guanabara e, quando o golpe militar de 1964 se instaurou, ele foi cassado e caiu na clandestinidade. “Ficaram de olho nele e em outros militantes políticos e os assassinaram, já antevendo que, com a redemocratização do país, que só se consolidou na metade dos anos 80, poderiam se tornar lideranças políticas importantes”, diz a autora. “Em 2024 completa 50 anos que o vô desapareceu e essa dor continua muito presente”, desabafa. Este livro é sobre a dor de perder alguém assim, sumido no vento por sonhar com um mundo melhor, como está escrito em suas páginas cheias de plantas, memórias e esperança.

Era uma vez no quintal, de Andreia Prestes
Pallas Editora
32 p. | R$ 56

  • O Porão (Record), de Vitor Soares e Giovanni Arceno

Ambientado no período da ditadura civil-militar brasileira, o livro-jogo conta com referências factuais e algumas fictícias, permitindo uma leitura atrativa e facilitando o aprendizado do público jovem. Samantha é uma militante durante a ditadura e descobre que sua parceira, Cecília, foi presa e levada para o Departamento de Ordem Política e Social, ou DOPS. Conhecido por seu papel de vigiar e punir a oposição do governo durante esse período, atua com métodos de tortura e repressão. Inclusive, construiu na sua sede um espaço reservado para a crueldade: um porão. O objetivo do livro não é banalizar ou retirar o simbolismo desse período, mas permitir que os jovens aprendam de maneira dinâmica e ilustrativa sobre esse importante capítulo da história do Brasil, podendo ser utilizado em salas de aula.

Vítor Soares é professor de história. Apresenta o podcast História em Meia Hora, o maior podcast sobre o tema do Brasil. Original de Angra dos Reis, atualmente mora no Rio de Janeiro. Coleciona projetos inusitados em áudio, vídeo e texto. Giovanni Arceno é publicitário e escritor. Natural de Garuva/SC, atualmente mora em Porto Alegre. O porão é seu terceiro livro e primeiro livro-jogo.

O porão, de Vitor Soares e Giovanni Arceno
Record
192 p. | R$ 59,90


FONTE: PUBLISHNEWS

Filtro Categorias

Artigos relacionados

Morre, aos 91 anos, Ziraldo, o criador de ‘O Menino Maluquinho’

Morre, aos 91 anos, Ziraldo, o criador de ‘O Menino Maluquinho’

Escritora de Uberaba é primeira mulher a vencer prêmio literário internacional

Escritora de Uberaba é primeira mulher a vencer prêmio literário internacional

Unesco escolhe Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro 2025

Unesco escolhe Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro 2025

Audiência pública vai discutir o novo edital do PNLD para o ensino médio

Audiência pública vai discutir o novo edital do PNLD para o ensino médio

Livros discutem os 60 anos do golpe militar de 1964

Livros discutem os 60 anos do golpe militar de 1964

Academia Mineira de Letras abre inscrições para curso sobre clássicos da literatura

Academia Mineira de Letras abre inscrições para curso sobre clássicos da literatura